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Presidente da ABMI analisa dinâmica de execuções do Spotify

Mais de 50% das execuções no Spotify vem de recomendações automatizadas, segundo dados divulgados pela própria plataforma em 2025. À medida que algoritmos passam a ocupar um papel cada vez maior na descoberta musical, a discussão sobre o futuro da indústria deixa de ser apenas sobre quem consegue lançar música e passa a envolver quem consegue ser descoberto.

É esse deslocamento que Felippe Llerena, presidente da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), analisa em artigo publicado no site da entidade. Para ele, quando a visibilidade depende cada vez mais de sistemas que priorizam retenção, recorrência e engajamento, esses critérios também passam a influenciar a forma como músicas são produzidas.

“Em 2025, o streaming (liderado pelo Spotify) representou mais de 80% da receita global da música gravada, segundo a IFPI. Não há, na prática, mercado relevante fora dessas plataformas. O relatório ‘Music in the Air 2025′, da Goldman Sachs, reforça que o crescimento do setor está diretamente ligado à personalização automatizada. Isso cria um incentivo claro para padronização. Se a expansão da receita depende da eficiência desses sistemas, o catálogo tende a se ajustar ao que eles privilegiam. A diversidade deixa de ser uma diretriz e passa a ser um desvio’, escreve Llerena.

Ele continua: “Os efeitos dessa lógica já são mensuráveis na forma das músicas. Análises de mercado entre 2025 e 2026 indicam aumento consistente de faixas mais curtas e com introduções imediatas, pensadas para evitar abandono nos primeiros segundos. Esse dado revela mais do que uma tendência estética, expõe uma mudança estrutural na linguagem musical. Construções mais longas, experimentais ou menos previsíveis tornam-se desvantagens competitivas. A música passa a ser organizada para maximizar permanência, não para desenvolver ideias”.

A questão levantada por Felippe Llerena é o efeito dessa lógica sobre a diversidade musical. A tecnologia reduziu as barreiras para produzir e distribuir música, mas o aumento do número de lançamentos não significa necessariamente uma distribuição mais ampla da atenção. Para a música independente, o desafio passa a ser disputar os mecanismos que determinam o que chega ao público em meio a um catálogo cada vez maior.

“Nesse cenário, a música independente preserva um espaço relevante de experimentação e identidade, mas enfrenta limites claros de alcance. Sem inserção consistente nos mecanismos que definem o que circula, sua presença no consumo massivo permanece restrita. Atribuir a esse segmento a função de sustentar a diversidade do ecossistema é ignorar a assimetria que estrutura o mercado. O problema não está na ausência de produção diversa, mas na forma como ela é filtrada e distribuída”, escreve ele.

“A discussão central, portanto, não é sobre tecnologia, mas sobre os critérios que organizam a cultura em escala. Enquanto retenção e engajamento forem os principais parâmetros de visibilidade, a tendência é de compressão da diversidade. Isso não elimina a criação, mas condiciona seus limites. O risco não é a falta de inovação, mas sua perda de espaço. Se essa lógica não for tensionada, a música continuará sendo moldada menos pelo que se quer expressar e mais pelo que consegue performar dentro de um sistema que privilegia repetição e previsibilidade”, continua.

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