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Roberto Menescal relembra o passado e fala sobre planos para o futuro

Roberto Menescal completou 80 anos em outubro último. Capixaba de Vitória, ele mudou-se para o Rio aos 17 anos e entrou para a história da música ao integrar o movimento fundador da Bossa Nova, gênero brasileiro mais conhecido e festejado no exterior. Mas o autor de clássicos como O barquinho e Você (ambas parcerias com Ronaldo Bôscoli), entre outros, foi diretor artístico da Polygram e produziu dezenas de álbuns lançados no Japão e outros países asiáticos. Atualmente, com várias produções em curso ou em fase de lançamento, Menescal mantém-se em plena atividade. Inclusive agregou à sua rotina, no final do ano passado, uma nova função – a de presidente da Abramus, uma das mais importantes sociedades de direitos autorais do país.

A seguir, conheça um pouco mais da história e dos projetos envolvendo Roberto Menescal, nesta entrevista exclusiva a Show Business + SUCESSO!:

O INÍCIO DE TUDO

“Comecei muito cedo. Tocava piano, incentivado por uma tia. Depois passei a tocar violão e entrei numa banda de baile. Aos 17 anos, decidi me mudar pro Rio. Lá, numa ocasião, fui no teatro ver Sylvinha Telles, onde ela fazia uma longa temporada. Era muito fã dela. Então, passei a ir toda quarta-feira, quando o preço era promocional. Um dia, curiosa por me ver sempre na plateia, ela me chamou após o show. Ao saber o que eu fazia, me convidou pra ser seu músico. ‘Mas eu toco há pouco tempo’, eu argumentei. Ela então respondeu: ‘Estou grávida (de Claudia Telles) e vou parar por um longo período. Minha próxima tour só acontece daqui a seis meses. Ensaie, aprenda as músicas e venha comigo’. Um tempo depois ela disse que eu deveria me aperfeiçoar ainda mais e chamou o mestre Moacir Santos pra ser meu professor. Além de tocar, passei a participar de gravações, a compor… e estou aqui até hoje. Obrigado Sylvinha Telles!”

DITADURA E POLYGRAM

“Não me lembro de ter passado por momentos muitos difíceis na carreira. Uma passagem marcante se deu quando começou a ditadura. Conversando com o Bôscoli, meu parceiro mais constante, nós concordamos: “tá difícil manter este tipo de música que a gente faz. Todo mundo lutando contra esse estado de coisas, contra o governo, e a gente falando “o barquinho vai, o barquinho vem…”. Pensamos em parar dois, três anos, período que eu imaginava duraria o regime. Mas o tempo foi passando, a ditadura não acabava e então eu resolvi estudar orquestração. Ao invés de ficar só tocando e compondo, aceitei o convite do André Midani pra ser diretor artístico da Polygram. Entrei em 1970 e só saí em 1985, quando achei que tinha concluído meu ciclo. Foi um trabalho fantástico, abriu minha cabeça para músicas e estilos que eu não conhecia. Parei de compor naquele período, achava que não era ético ficar mostrando minhas músicas para os contratados da companhia.

COMPOSIÇÕES PREFERIDAS

“Gosto de várias canções do meu repertório que não ficaram tão conhecidas como os clássicos da Bossa Nova. Gosto, por exemplo de Nós e o Mar (que tocou bastante, em vários países), Rio (no momento atual, jamais eu faria) e Vagamente – todas com Bôscoli. Tenho carinho especial por uma parceria com Lula Freyre (Adriana), feita quando minha filha nasceu, e por Só Quis Você, gravada pelo grupo Os Cariocas.

CURIOSIDADES

Fiz uma canção com o Bôscoli (A Volta) usada por ele, que escreveu a letra, para conquistar corações. Sempre que o Bôscoli se encantava por uma moça, mostrava-lhe a música e dizia: ‘essa eu fiz pra você’. Teve modelo conhecida, atriz famosa e até a Elis Regina, com quem ele acabou se casando. Nas nossas parcerias, sempre eu criava primeiro a melodia e depois ele compunha a letra. Outra curiosidade: certa vez, o cineasta Cacá Diegues me convidou para um jantar. Quando cheguei, vi que o Chico Buarque estava lá. Aí o Cacá pediu pra fazermos uma música em parceria para um filme que ele estava rodando, Bye Bye Brasil. Cacá me pediu a música, avisando que eu não poderia explorar um único ritmo, porque o filme falaria de diferentes culturas do país. Pediu pro Chico escrever, mas alertou que ele não deveria falar de um só tema ou lugar. Eu fiz a música no dia seguinte. O Chico levou dois meses pra fazer a letra. Um dia, eu estava no estúdio com o Cacá e o Chico entrou com um “rolo” de papel, todo emendado, uns dez metros. Era a letra da música – naquele momento bem mais extensa do que a versão final. Chico cortou partes, adaptou e aproveitamos para gravar a canção ali mesmo. Virou um grande sucesso.

PRODUÇÕES E JAPÃO

Tive sorte de trabalhar na Polygram com alguns artistas que estavam na hora de dar o grande pulo na carreira – e eu acabei participando disso. Produzi o disco da Elis que tem Águas de Março, que vendeu 150 mil cópias (número quase dez vezes superior à média dela até então). O mesmo aconteceu com o Chico. Participei do álbum Construção, com o qual Chico pulou da casa de 30 mil cópias/álbum para 300 mil. Eu participei dos projetos mas o resultado não foi mérito meu e sim dos artistas. Era o momento deles. Já a série Aquarela Brasileira, do Emilio Santiago, considero o trabalho mais importante da minha vida. Emilio vendia pouco na Polygram e quando eu saí, em 1985, saíram também com ele. Eu propus a ele lançar o álbum Aquarela Brasileira, com releituras de clássicos da MPB. Pensei: quem sabe a gente consegue vender pelo menos 50 mil cópias… Vendemos 850 mil. Fizemos ao todo sete volumes, que venderam mais de seis milhões de unidades.
Pelo meu selo, Albatroz, criado depois da fase Polygram, ou de forma independente, produzi mais projetos do que artistas. Fiz muitos discos para o exterior, principalmente para o mercado japonês. Me encomendaram um disco de 30 anos da Bossa Nova, então fiz Benção Bossa Nova, com a Leila Pinheiro. Foi o disco dela que mais vendeu até hoje. Dai em diante, o Japão passou a encomendar projetos com frequência. Fiz pra eles Sinatra em bossa nova, Beatles em bossa nova, Rolling Stones em bossa nova. Foram ao todo cerca de 50 discos para o mercado asiático.

LADY GAGA E ANITTA

Não acompanho de perto o que acontece na música, exceto os gêneros que eu aprecio. Mas gostei por exemplo de ouvir Lady Gaga cantando com Tony Bennett (Cheek to Cheek e The Lady is a Tramp). Também achei interessante a gravação da Anitta de Will I See You (com Poo Bear). Anitta é muito boa. Se quiser, pode fazer carreira internacional cantando também este tipo de música. Mas ultimamente tenho ouvido muito blues, inclusive porque estou fazendo um disco com a banda Bossacucanova cujo título será Bossa Blues.

LANÇAMENTOS

Estamos agora promovendo meu disco mais recente, Bossa Nova Meets The Beatles, produzido pelo Carlos Coelho (guitarrista do Biquini Cavadão) e que tem a participação nos vocais do cantor carioca Claudio Duarte. São versões em bossa para hits dos Beatles que casam bem com a música brasileira. Neste ano realizaremos uma série de shows deste projeto.

A Biscoito Fino lançou há pouco um disco com dez músicas que eu compus nos últimos 30 anos com o Abel Silva. O álbum, Encontro inédito, tem gravações de Nara Leão, Leila Pinheiro e Isabela Taviani, entre outras. Tem ainda um álbum que estou lançando com o Quarteto do Rio (antigo Os Cariocas). São só músicas minhas, três delas inéditas. O título é Mr. Bossa Nova. No fim do ano passado, fizemos alguns shows promocionais.

BOSSA AQUI E NO EXTERIOR

A bossa é o gênero brasileiro mais conhecido lá fora porque nós, que começamos o movimento, escutávamos e gostávamos muito de jazz. A música que mais nos interessava por aqui era o samba- canção, apesar das letras mais sofridas. Então a gente pensou em explorar os dois gêneros e fazer uma coisa brasileira, só que mais esperançosa, pra cima. As melodias e harmonias tinham muito do jazz. Então, a bossa já nasceu internacional.

Ela perdeu espaço por aqui, todos sabemos. O que faz mais sucesso no país (sertanejo, funk) tem a cara do brasileiro médio. Acho que esta, sim, é a MPB atual, não aquilo que a gente fazia em outras décadas. As classes média e baixa cresceram muito e trouxeram seus gostos. Nós somos os representantes do ‘jazz brasileiro’. Em 2018, o jazz americano completa 100 anos, enquanto a bossa nova faz 60 anos. O jazz nunca foi sucesso de massa. É sucesso de festivais. O mesmo acontece com a bossa.

ABRAMUS

No final do ano passado aceitei o convite para presidir a Abramus. Eu participava de reuniões uma ou duas vezes por mês e as discussões sempre giravam em torno de questões administrativas e técnicas – cobrança de direitos, percentuais, inadimplência. Então eu disse: além desses tema, a gente também precisa falar de música, de criação. Daí abrimos um espaço na Abramus para reuniões artísticas, onde certamente nascerão parcerias e novos hits. Minha importância é essa. Por conta de compromissos profissionais, não consigo tocar o dia-a-dia da Abramus. E nem há essa necessidade. Vou às reuniões e todo o resto é tocado por uma equipe competentíssima chefiada pelo Roberto Mello, nosso diretor geral.

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